Simplesmente humano

Nossos erros e medos dificultam nossa caminhada, mas, por meio da descoberta profunda de nossa sinceridade, podemos despertar nosso eu verdadeiro.

É muito comum termos um medo imenso de enfrentar tudo aquilo que chamamos de mal, ruim, feio. Fugimos apressados na tentativa de esconder tudo isso do outro e de nós mesmos. Porém, ao fazermos isso, agimos como um jardineiro relaxado que, temeroso dos espinhos, não cuida da roseira para que ela floresça.

Os nossos medos, erros e enganos são como os espinhos de uma roseira sem flores. Embora a roseira sem flores não inspire os sentidos e apresente perigosos espinhos, como esperar o desabrochar das rosas sem o trato contínuo do espinheiro pelo jardineiro? O espinheiro encerra em si o perfume e a beleza da rosa. E basta o cuidado para que a roseira exale na sua hora o doce perfume da rosa.

Somos, por ora, tal qual a roseira repleta de espinhos. Não deprecie os espinhos, não critique o espinheiro. Mais do que poda, precisamos de zelo e cuidado. Compartilhemos com a vida o mistério de sermos espinheiros e jardineiros de nós mesmos. Não menospreze a si e tão pouco aos outros pelos espinhos. Em cada um de nós se encerra uma beleza maior que todas as flores. Cultivemo-nos como faria um jardineiro. Temos algo único, cada um, a oferecer ao mundo. A hora do nosso desabrochar é um mistério, mas não nos isenta de fazermos a nossa parte.

É preciso cultivar e encontrar esse tesouro único dentro de si mesmo. Entretanto, o que é esse tesouro? É a nossa mais pura humanidade. O que nós temos de mais humano. Não esse humano encouraçado. Mas aquele, muitas vezes esquecido, que chora por um belo filme, que se sensibiliza e é puramente sincero. Não aquela sinceridade que esconde veneno. Mas aquela capaz de nos mostrar tal qual somos na grandeza e na pequenez que nos constitui. No belo e no feio. Humilde perante os próprios espinhos, e imensamente reverente perante nossas virtudes e perfumes.

Sejamos, pois, apenas verdadeiramente humanos, com todo zelo. Mesmo que não tenhamos, ainda, nos convertido em flores.

Guilherme Marcelo Moro é Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta.

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